Trilha ”proibida” até o mar desafia a fiscalização

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Mônica Cardoso

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O automóvel sacoleja em uma estrada de terra esburacada e vazia. Não há placas indicando as curvas acentuadas do caminho, repleto de orquídeas, samambaias, bromélias e pinus. Galos e cavalos atravessam a estrada e fogem assustados com o barulho do motor. Moradores acenam para os forasteiros. Um friozinho de serra e a tranquilidade interiorana do extremo sul de São Paulo, em Parelheiros, contrastam com a agitação da metrópole. Chega-se assim ao Núcleo Curucutu, que integra o Parque Estadual da Serra do Mar. De lá, sai uma antiga rota indígena que liga São Paulo a Itanhaém, no litoral sul, conhecida como Trilha de Santo Amaro ou do Rio Branco. A visitação pública à trilha não é permitida, mas muitos grupos desafiam a proibição. O governo estuda a abertura da trilha, porém só no longo prazo.

O percurso, de 18 quilômetros, é um dos mais longos do Estado. Apesar da proibição de visitação, a intocada vegetação nativa com cachoeiras e animais silvestres como onças, antas e capivaras atiçam a curiosidade de aventureiros. “Estimamos um número bem maior de visitantes ao parque do que o registrado. No ano passado, foram registrados 84 mil visitantes . Isso é um terço da nossa estimativa, que ultrapassa 240 mil”, diz Adriana Mattoso, gerente das unidades de conservação da Fundação Florestal.

No dia 6, um grupo de 14 pessoas, incluindo um adolescente, foi encontrado pelos bombeiros após passar 53 horas na Serra do Mar. Eles haviam feito a trilha que liga a cidade de Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, a Itanhaém. “Muitas pessoas vão sem guia e o risco de se perder é bastante grande, principalmente com chuva e neblina. Outros contratam operadoras de ecoturismo ou guias clandestinos que fazem o percurso sem a nossa autorização. Muitos utilizam a via férrea, passando por pontes e túneis. E se aparecer um trem, não há maneira de escapar. O que era para ser um passeio acaba virando tormento.”

O governo estadual triplicou a fiscalização no Parque da Serra do Mar há dois anos. Hoje são 3.106 postos de vigilância e 230 vigilantes. Além dos aventureiros, quadrilhas de palmiteiros buscam a mata. “A trilha está sendo estruturada, mas não é prioridade abri-la ao público. É uma questão bastante delicada, especialmente porque o caminho passa pelo território da Aldeia Indígena Guarani do Rio Branco”, diz Adriana.

O engenheiro Eduardo (nome fictício), de 51 anos, acumula mais de 30 anos nesses caminhos. Ele já percorreu duas vezes a Trilha de Santo Amaro. “Quando fiz a trilha, há cinco anos, fui bem recebido na aldeia. Mas um amigo que fez o caminho há pouco tempo teve de dar dinheiro a um grupo de índios, que disse que a terra é deles.”Adriana lembra que cerca de 40 trilhas estão abertas ao público, com saída a partir dos oito núcleos – com monitores. No Núcleo Curucutu, por exemplo, duas trilhas são abertas à visitação. A da Bica, com 1,4 quilômetro, é de leve intensidade. Já a do Mirante, com 1,6 km, exige mais por causa da subida, de onde se avista Mongaguá, Itanhaéme Praia Grande, no litoral sul.

COMPROMISSO

No segundo semestre, deve ser aberta ao público a Trilha dos Campos, com 12 km de extensão e próxima da Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos. A trilha faz parte do projeto que interligará os oito núcleos do parque. O Parque da Serra do Mar é o maior do Estado, com 315 mil hectares, e se estende por 23 municípios, de Ubatuba, no litoral norte, até Pedro de Toledo, no Vale do Ribeira.

Em novembro de 2006, o secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge, integrou um grupo que percorreu a trilha em quase dez horas. O objetivo era firmar um compromisso entre a Prefeitura de Itanhaém, a Subprefeitura de Parelheiros e a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, mas nada foi feito. “Minha ideia foi conhecer e ajudar a divulgar o potencial turístico da região, mas a administração do parque cabe ao governo do Estado.”

NÚMEROS

84 mil visitantes registrados passaram pela Parque da Serra do Mar no ano passado

240 mil pessoas estiveram realmente no Parque, segundo estimativa da administração da área ambiental

40 trilhas estão abertas ao público, com saída dos núcleos monitorados

estadao.com.br

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